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"O que me faz viver é tão intenso que até me perco se explicar. O que me faz viver é tão profundo, mas me vê no mundo, no singular. O que me faz viver vai além da lógica. É maior do que a amplitude cósmica, que o meu pensar. O que me faz viver, eu sei, é isto: de Jesus, o Cristo, o amar." [Sérgio Pimenta]
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terça-feira, 24 de maio de 2011

SÓ DE SACANAGEM



De Elisa Lucinda


Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam
entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo
duramente para educar os meninos mais pobres que eu,
para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus
pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e
eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança
vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança
vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o
aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus
brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao
conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e
dos justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva
o lápis do coleguinha",
" Esse apontador não é seu, meu filhinho".

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido
que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca
tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica
ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao
culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do
meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:
mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem!

Dirão: "Deixa de ser bobo, desde Cabral que aqui todo
o mundo rouba" e eu vou dizer: Não importa, será esse
o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu
irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a
quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o
escambau.

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde
o primeiro homem que veio de Portugal".

Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.

Eu repito, ouviram? IMORTAL!

Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente
quiser, vai dá para mudar o final

sábado, 21 de maio de 2011

A AURORA DO CRISTIANISMO SECULAR

"Mais um mês se passou. O tempo passa tão rápido para você quanto passa para mim aqui? Fico muitas vezes surpreso diante disso – e quando vai chegar o mês em que você e Renate, eu e Maria, e nós dois possamos nos encontrar novamente?

Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o mundo a cada dia e poderiam mudar todos os nossos relacionamentos pessoais; gostaria por isso de escrever-lhe com frequência muito maior, em parte porque não sei por quanto tempo poderei fazê-lo, e ainda mais porque queremos dividir tudo um com o outro com a maior frequência e pelo maior tempo possíveis.


Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas.

Estou inteiramente convencido de que quando você chegar a receber esta carta grandes decisões já estarão colocando as coisas em movimento em todas as frentes. Durante as próximas semanas precisaremos de grande força interior, e é isso que desejo para você. Devemos todos manter as mentes lúcidas, de modo a que nada nos assuste.

Em vista do que está por vir estou quase pronto a citar o δει bíblico, e sinto que “anseio olhar”, como os anjos em 1 Pedro 1:121, a fim de ver de que modo Deus irá resolver o aparentemente insolúvel. Creio que Deus está prestes a realizar alguma coisa que, quer façamos parte dela de forma aparente ou oculta, seremos capazes apenas de receber, com a maior maravilha e assombro. De algum modo ficará claro – para os que tiverem olhos para ver – que o Salmo 58:11b2 e o Salmo 9:19-203 são verdadeiros; e teremos de repetir Jeremias 45:54 para nós mesmos todos os dias.

É mais difícil para você passar por isso separado de Renate e do seu menino do que é pra mim, pelo que penso em você especificamente, como estou fazendo agora. Parece-me que seria muito mais fácil, e para nós dois, se pudéssemos passar por isso juntos, ajudando um ao outro. Mas é provavelmente “melhor” que não seja assim, e que cada um de nós o enfrente sozinho. Acho difícil não poder ajudá-lo em coisa alguma – exceto pensando em você de manhã e à noite quando leio a Bíblia, e com frequência durante o dia também.

Você não precisa se preocupar comigo de forma alguma, porque estou levando incomumente bem – você ficaria surpreso se viesse me ver. As pessoas aqui vivem me dizendo (e como você vê, sinto-me muito lisonjeado com isso) que “irradio tanta paz ao meu redor” e que “sou sempre tão alegre” – de modo que os sentimentos muito distintos desses que às vezes me assombram devem, estou achando, basear-se numa ilusão (não que eu de alguma forma acredite nisso!).


Se a religião era uma forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, o que isso quer dizer para o cristianismo?


Você ficaria surpreso, e talvez até preocupado, se soubesse que rumo estão tomando minhas reflexões teológicas; e é aqui que sinto mais falta de você, porque não conheço ninguém mais com quem poderia discutir essas coisas a fim de ter meu pensamento aclarado.

O que me tem incomodado incessantemente é a questão de o que de fato o cristianismo é, ou ainda quem de fato Cristo é, para nós hoje. Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas, e terminou também o tempo da introspecção e da consciência – e portanto o tempo da religião em geral. Estamos progredindo rumo a uma era completamente isenta de religião; da forma como são agora, as pessoas são simplesmente incapazes de serem religiosas. Mesmo os que se descrevem como religiosos não agem de forma alguma em conformidade com isso, e devem portanto estar se referindo a algo muito diferente com esse “religioso”.

Os mil e novecentos anos de pregação e teologia cristãs estão inteiramente embasados no conceito de uma religiosidade inerente à raça humana. O “cristianismo” foi sempre uma manifestação – talvez a verdadeira manifestação – de “religião”. Mas se um dia fica claro que esse “inerente” não existe de forma alguma, mas tratava-se de um forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, e se o homem torna-se em consequência disso radicalmente irreligioso – e creio que seja mais ou menos esse o caso (do contrário como explicar, por exemplo, que esta guerra, em contraste com todas as anteriores, não está produzinho qualquer reação “religiosa”?) – o que isso quer dizer para o “cristianismo”?

Quer dizer que foi removida a fundação de tudo que havia sido até agora nosso “cristianismo”, e que restam uns poucos “últimos sobreviventes da era dos cavaleiros”, ou uns poucos sujeitos intelectualmente desonestos, dos quais podemos descender como “religiosos”. Serão esses os poucos escolhidos? Será contra esse dúbio grupo de pessoas que deveremos arremeter com zelo, ressentimento ou indignação, a fim de vendermos a eles os nossos bens? Devemos atacar um punhado de gente infeliz em sua hora de necessidade e exercitar sobre eles uma espécie de compulsão religiosa? Se não queremos fazer tudo isso, se nosso julgamento final deve ser que a forma ocidental do cristianismo foi, também ela, apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião, que tipo de situação emerge para nós, para a igreja? Existem cristãos sem religião? Se a religião é apenas uma vestimenta do cristianismo – e se mesmo essa vestimenta já teve diferentes aspectos em diferentes épocas – o que é então um cristianismo sem religião?


E se a forma ocidental do cristianismo foi apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião?

Barth, o único a começar a trilhar essa linha de raciocínio, não levou-a até o final, mas chegou ao positivismo da revelação, que em última análise é essencialmente uma restauração. Para o trabalhador comum sem religião (ou para qualquer outro homem) não há lucro algum aqui. As perguntas a serem respondidas devem ser certamente as seguintes: o que significam uma igreja, uma comunidade, um sermão, uma liturgia, uma vida cristã, num mundo sem religião? Como se fala de Deus sem religião – isto é, sem as pressuposições temporalmente condicionadas de metafísica, introspecção e assim por diante? Como se fala (ou talvez agora não possamos nem mesmo “falar” do modo como estávamos habituados a fazer) de um modo “secular” sobre “Deus”?

Em que sentido somos cristãos seculares e sem religião, em que sentido somos a “ek-klesia”, os que são convocados, sem olharmos para nós mesmos de um ponto de vista religioso como especialmente favorecidos, mas ao contrário pertencendo ao mundo de modo completo? Nesse caso Cristo não é mais um objeto de religião, mas algo inteiramente diferente: é realmente o Senhor do mundo. Mas o que isso quer dizer? Qual é o lugar de adoração e de oração numa conjuntura sem religião? Assumirá a disciplina secreta, ou alternativamente a diferença entre o último e o penúltimo, uma importância nova nesta situação?


Como se fala de um modo “secular” sobre “Deus”?

Preciso parar por hoje, para que a carta posso partir imediatamente. Devo escrever de novo dentro de dois dias. Espero que você entenda mais ou menos o que estou querendo dizer, e que não ache muito enfadonho. Adeus por enquanto. Não é sempre fácil escrever sem um eco, e você deve me perdoar se isso faz das minhas cartas algo como um monólogo.


Penso muito em você.


Seu Dietrich
"


Dietrich Bonhoeffer a Eberhard Bethge,
do campo de concentração de Tegel
30 de abril de 1944

sexta-feira, 20 de maio de 2011

A MINHA PORÇÃO É O SENHOR



Um estudo realizado por um professor da Universidade de Cornell e seu irmão, pastor presbiteriano mostrou que o tamanho das porções e dos pratos representados nos quadros da Última Ceia têm aumentado sensivelmente no decorrer do último milênio.

As descobertas sugerem que o fenômeno de servirem-se porções maiores em pratos maiores, que leva as pessoas a comerem mais do que deveriam, tem se acentuado gradualmente no mesmo período.

Os pesquisadores analisaram 52 pinturas da Última Ceia, e descobriram que nos últimos mil anos o tamanho do prato principal cresceu progressivamente 69 por cento, e o tamanho do pão cerca de 23 por cento.

Fonte: Reuters

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A CIDADE ESCONDIDA E O DEUS AUSENTE


Até aqui não havia conseguido ponderar sobre os acontecimentos da última quinta-feira (7/04/11). Não havia entusiasmo para arguir ou tecer uma análise. Ainda pasmo e paraliso de terror cada vez que refaço em minha mente as cenas que a mídia não se cansa de narrar. Freud dizia que estamos perpetuamente conspirando em segredo contra nós mesmos. A morte estúpida de crianças em uma escola me faz desconfiar que tal conspiração está cada vez mais explícita.

Em um de seus comentários arbitrários, [Arnaldo Jabor ] citava a carta do assassino enfatizando as partes onde ele falava de “puros e impuros”, “Deus”, “Jesus” e dava recomendações a respeito de seu próprio funeral. Jabor aproveita aquela carta para traçar um histórico da religiosidade humana e suas nefastas conseqüências, agregando, como de praxe, religiosidade e Deus a um único pacote. Por fim arrematava seu comentário com a asseveração de que, apesar de toda a religiosidade, Deus está cada vez mais ausente.

Ora, sejamos mais práticos. Era, na verdade, um sujeito esquizofrênico, solitário, abandonado de todos os lados, perseguido cruelmente na escola por ser “estranho”. Sua carta era uma sucessão de delírios. Ele não professava nela nenhuma religião específica, apenas religiosidade. Neste episódio macabro, aquele sujeito psicótico e atormentado foi apenas o executor. O autor, na verdade, não tem cara. Está presente em instituições como escolas, empresas, ambientes religiosos e na mídia.

O que acontece, de fato, é que este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são nossos favoritos? Os notáveis, os talentosos, os destacados, os fluentes, os afluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os afinados, os inteligentes, os espirituais. Quanto mais admiráveis nos parecem as qualidades de alguém, mais naturalmente, mais inevitavelmente essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.

Aqueles que não têm alguma competência para oferecer: os feios, os desajeitados, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar intuem por sua vez que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não têm competências em grau ou quantidade suficientes para merecer nosso amor, e sabem disso.

Nossa tendência mais natural é amar as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja essa capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que também dou o nome de religiosidade: não amamos as pessoas, amamos suas competências. A religiosidade humana não se resume apenas àquela religiosidade talhada a mão, professada em ambientes ditos sagrados, onde se aglomeram devotos. Trata-se de uma religiosidade mais tosca, não lapidada, esperando receber um formato. Mais ou menos como na carta do sujeito. Para ele as distinções se resumem a “puros e impuros”. Para nós, as distinções mais comuns se baseiam em bonitos e feios, inteligentes e tapados, normais e estranhos... a lista é inesgotável.

A religiosidade não é, portanto, um privilégio dos que se organizam sob um punhado de crenças. A religiosidade é intrínseca ao ser humano, seja ele místico ou agnóstico. É formato do mundo, com o qual não se pode conformar, porque é cármico, é recompensalista e cruel. E neste sistema Deus foi convidado a se retirar, de modo que, é lógico, está ausente. Pois nossa vida é, de cima a baixo, da infância à velhice, da manhã à noite, do trabalho ao lazer, mera resposta condicionada às exigências feitas sobre nós pelos outros e por um meio-ambiente criado pelo homem.

Mas acho que o mundo ainda pode ser salvo disso, e quero explicar como, mas preste atenção porque só vou dizer uma vez.

É necessário em primeiro lugar que se entenda que (e porque) a situação está cada vez mais desesperadora do que já esteve. O mundo está duas vezes mais difícil de salvar do que, digamos, no tempo de Jesus, e não é só porque há mais gente para ser salva. Tanto a salvação do mundo quanto a específica dificuldade presente estão ligadas à qualidade das relações entre as pessoas.

Há dois mil anos, para salvar o mundo, bastava convidar as pessoas a abraçarem uma forma radical e revolucionária de convivência. Hoje em dia é preciso lembrá-las, em primeiro lugar, do que é convivência, que há um mundo possível determinado pelas relações autônomas e criativas entre as pessoas, um mundo louquíssimo impulsionado pela graça fragilíssima da camaradagem e não pela sociedade de consumo, pela internet, pelos reality shows, pelos times de futebol, pela marca da roupa, pelo modelo do carro, pelo peso onipresente das pressões familiares, religiosas, sexuais, econômicas, raciais e políticas.

Jesus viveu naturalmente para denunciar a religiosidade humana. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é incrivelmente, a ausência de qualquer critério. O Filho do Homem desafia-nos a ser nisso singulares (leia-se santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente como metralhadoras, abandonando definitivamente os critérios usuais de competência. Essa regra divina pode ser expressa da seguinte forma: Ninguém merece, por isso todos podem ter.

Portanto, desiluda-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem-intencionadas que sejam, e raramente são. A salvação não virá de ONGs ou OGs, Gogues ou Magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias legislativas, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência humanitária. Se eu e você não fizermos, ninguém vai fazer. Absolutamente ninguém vai fazer.

“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre o monte.”

Mateus 5:14

Não se iluda, isso não é função de nenhum grupo específico. Qualquer um pode trazer luz ao mundo, qualquer um. Mas na maior parte do tempo Deus não existe, quando a situação aperta ele passa a estar ausente e o evangelho é uma farsa. Não se pode esconder uma boa-nova que se aplica a qualquer um, por isso, quando não atinge indiscriminadamente a todos, a cidade não está sobre o monte, e pode ser facilmente escondida.