- Alexandre Verçosa
- "O que me faz viver é tão intenso que até me perco se explicar. O que me faz viver é tão profundo, mas me vê no mundo, no singular. O que me faz viver vai além da lógica. É maior do que a amplitude cósmica, que o meu pensar. O que me faz viver, eu sei, é isto: de Jesus, o Cristo, o amar." [Sérgio Pimenta]
segunda-feira, 23 de maio de 2011
VEM ME SOCORRER
Fiz esse vídeo, que na verdade nada mais é que uma sequência de slides com imagens que eu julguei lembrar a letra dessa música. Veja:
Acho que imagens e música juntos não deixam espaço para argumento. Por vezes isso é utilizado de forma perversa e manipulatória, mas no caso em questão, "não tenho um tom, não tenho palavras, não tenho um acorde que me socorra agora" e "essa não é mais uma canção de amor". Então... quem tem ouvidos para ouvir e olhos para ver, ouça e veja...
Acho que imagens e música juntos não deixam espaço para argumento. Por vezes isso é utilizado de forma perversa e manipulatória, mas no caso em questão, "não tenho um tom, não tenho palavras, não tenho um acorde que me socorra agora" e "essa não é mais uma canção de amor". Então... quem tem ouvidos para ouvir e olhos para ver, ouça e veja...
sábado, 21 de maio de 2011
A AURORA DO CRISTIANISMO SECULAR
"Mais um mês se passou. O tempo passa tão rápido para você quanto passa para mim aqui? Fico muitas vezes surpreso diante disso – e quando vai chegar o mês em que você e Renate, eu e Maria, e nós dois possamos nos encontrar novamente?
Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o mundo a cada dia e poderiam mudar todos os nossos relacionamentos pessoais; gostaria por isso de escrever-lhe com frequência muito maior, em parte porque não sei por quanto tempo poderei fazê-lo, e ainda mais porque queremos dividir tudo um com o outro com a maior frequência e pelo maior tempo possíveis.
Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas.
Estou inteiramente convencido de que quando você chegar a receber esta carta grandes decisões já estarão colocando as coisas em movimento em todas as frentes. Durante as próximas semanas precisaremos de grande força interior, e é isso que desejo para você. Devemos todos manter as mentes lúcidas, de modo a que nada nos assuste.
Em vista do que está por vir estou quase pronto a citar o δει bíblico, e sinto que “anseio olhar”, como os anjos em 1 Pedro 1:121, a fim de ver de que modo Deus irá resolver o aparentemente insolúvel. Creio que Deus está prestes a realizar alguma coisa que, quer façamos parte dela de forma aparente ou oculta, seremos capazes apenas de receber, com a maior maravilha e assombro. De algum modo ficará claro – para os que tiverem olhos para ver – que o Salmo 58:11b2 e o Salmo 9:19-203 são verdadeiros; e teremos de repetir Jeremias 45:54 para nós mesmos todos os dias.
É mais difícil para você passar por isso separado de Renate e do seu menino do que é pra mim, pelo que penso em você especificamente, como estou fazendo agora. Parece-me que seria muito mais fácil, e para nós dois, se pudéssemos passar por isso juntos, ajudando um ao outro. Mas é provavelmente “melhor” que não seja assim, e que cada um de nós o enfrente sozinho. Acho difícil não poder ajudá-lo em coisa alguma – exceto pensando em você de manhã e à noite quando leio a Bíblia, e com frequência durante o dia também.
Você não precisa se preocupar comigo de forma alguma, porque estou levando incomumente bem – você ficaria surpreso se viesse me ver. As pessoas aqui vivem me dizendo (e como você vê, sinto-me muito lisonjeado com isso) que “irradio tanta paz ao meu redor” e que “sou sempre tão alegre” – de modo que os sentimentos muito distintos desses que às vezes me assombram devem, estou achando, basear-se numa ilusão (não que eu de alguma forma acredite nisso!).
Se a religião era uma forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, o que isso quer dizer para o cristianismo?
Você ficaria surpreso, e talvez até preocupado, se soubesse que rumo estão tomando minhas reflexões teológicas; e é aqui que sinto mais falta de você, porque não conheço ninguém mais com quem poderia discutir essas coisas a fim de ter meu pensamento aclarado.
O que me tem incomodado incessantemente é a questão de o que de fato o cristianismo é, ou ainda quem de fato Cristo é, para nós hoje. Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas, e terminou também o tempo da introspecção e da consciência – e portanto o tempo da religião em geral. Estamos progredindo rumo a uma era completamente isenta de religião; da forma como são agora, as pessoas são simplesmente incapazes de serem religiosas. Mesmo os que se descrevem como religiosos não agem de forma alguma em conformidade com isso, e devem portanto estar se referindo a algo muito diferente com esse “religioso”.
Os mil e novecentos anos de pregação e teologia cristãs estão inteiramente embasados no conceito de uma religiosidade inerente à raça humana. O “cristianismo” foi sempre uma manifestação – talvez a verdadeira manifestação – de “religião”. Mas se um dia fica claro que esse “inerente” não existe de forma alguma, mas tratava-se de um forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, e se o homem torna-se em consequência disso radicalmente irreligioso – e creio que seja mais ou menos esse o caso (do contrário como explicar, por exemplo, que esta guerra, em contraste com todas as anteriores, não está produzinho qualquer reação “religiosa”?) – o que isso quer dizer para o “cristianismo”?
Quer dizer que foi removida a fundação de tudo que havia sido até agora nosso “cristianismo”, e que restam uns poucos “últimos sobreviventes da era dos cavaleiros”, ou uns poucos sujeitos intelectualmente desonestos, dos quais podemos descender como “religiosos”. Serão esses os poucos escolhidos? Será contra esse dúbio grupo de pessoas que deveremos arremeter com zelo, ressentimento ou indignação, a fim de vendermos a eles os nossos bens? Devemos atacar um punhado de gente infeliz em sua hora de necessidade e exercitar sobre eles uma espécie de compulsão religiosa? Se não queremos fazer tudo isso, se nosso julgamento final deve ser que a forma ocidental do cristianismo foi, também ela, apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião, que tipo de situação emerge para nós, para a igreja? Existem cristãos sem religião? Se a religião é apenas uma vestimenta do cristianismo – e se mesmo essa vestimenta já teve diferentes aspectos em diferentes épocas – o que é então um cristianismo sem religião?
E se a forma ocidental do cristianismo foi apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião?
Barth, o único a começar a trilhar essa linha de raciocínio, não levou-a até o final, mas chegou ao positivismo da revelação, que em última análise é essencialmente uma restauração. Para o trabalhador comum sem religião (ou para qualquer outro homem) não há lucro algum aqui. As perguntas a serem respondidas devem ser certamente as seguintes: o que significam uma igreja, uma comunidade, um sermão, uma liturgia, uma vida cristã, num mundo sem religião? Como se fala de Deus sem religião – isto é, sem as pressuposições temporalmente condicionadas de metafísica, introspecção e assim por diante? Como se fala (ou talvez agora não possamos nem mesmo “falar” do modo como estávamos habituados a fazer) de um modo “secular” sobre “Deus”?
Em que sentido somos cristãos seculares e sem religião, em que sentido somos a “ek-klesia”, os que são convocados, sem olharmos para nós mesmos de um ponto de vista religioso como especialmente favorecidos, mas ao contrário pertencendo ao mundo de modo completo? Nesse caso Cristo não é mais um objeto de religião, mas algo inteiramente diferente: é realmente o Senhor do mundo. Mas o que isso quer dizer? Qual é o lugar de adoração e de oração numa conjuntura sem religião? Assumirá a disciplina secreta, ou alternativamente a diferença entre o último e o penúltimo, uma importância nova nesta situação?
Como se fala de um modo “secular” sobre “Deus”?
Preciso parar por hoje, para que a carta posso partir imediatamente. Devo escrever de novo dentro de dois dias. Espero que você entenda mais ou menos o que estou querendo dizer, e que não ache muito enfadonho. Adeus por enquanto. Não é sempre fácil escrever sem um eco, e você deve me perdoar se isso faz das minhas cartas algo como um monólogo.
Penso muito em você.
Seu Dietrich"
Dietrich Bonhoeffer a Eberhard Bethge,
do campo de concentração de Tegel
30 de abril de 1944
Tenho a impressão nítida de que eventos momentosos estão movendo o mundo a cada dia e poderiam mudar todos os nossos relacionamentos pessoais; gostaria por isso de escrever-lhe com frequência muito maior, em parte porque não sei por quanto tempo poderei fazê-lo, e ainda mais porque queremos dividir tudo um com o outro com a maior frequência e pelo maior tempo possíveis.
Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas.
Estou inteiramente convencido de que quando você chegar a receber esta carta grandes decisões já estarão colocando as coisas em movimento em todas as frentes. Durante as próximas semanas precisaremos de grande força interior, e é isso que desejo para você. Devemos todos manter as mentes lúcidas, de modo a que nada nos assuste.
Em vista do que está por vir estou quase pronto a citar o δει bíblico, e sinto que “anseio olhar”, como os anjos em 1 Pedro 1:121, a fim de ver de que modo Deus irá resolver o aparentemente insolúvel. Creio que Deus está prestes a realizar alguma coisa que, quer façamos parte dela de forma aparente ou oculta, seremos capazes apenas de receber, com a maior maravilha e assombro. De algum modo ficará claro – para os que tiverem olhos para ver – que o Salmo 58:11b2 e o Salmo 9:19-203 são verdadeiros; e teremos de repetir Jeremias 45:54 para nós mesmos todos os dias.
É mais difícil para você passar por isso separado de Renate e do seu menino do que é pra mim, pelo que penso em você especificamente, como estou fazendo agora. Parece-me que seria muito mais fácil, e para nós dois, se pudéssemos passar por isso juntos, ajudando um ao outro. Mas é provavelmente “melhor” que não seja assim, e que cada um de nós o enfrente sozinho. Acho difícil não poder ajudá-lo em coisa alguma – exceto pensando em você de manhã e à noite quando leio a Bíblia, e com frequência durante o dia também.
Você não precisa se preocupar comigo de forma alguma, porque estou levando incomumente bem – você ficaria surpreso se viesse me ver. As pessoas aqui vivem me dizendo (e como você vê, sinto-me muito lisonjeado com isso) que “irradio tanta paz ao meu redor” e que “sou sempre tão alegre” – de modo que os sentimentos muito distintos desses que às vezes me assombram devem, estou achando, basear-se numa ilusão (não que eu de alguma forma acredite nisso!).
Se a religião era uma forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, o que isso quer dizer para o cristianismo?
Você ficaria surpreso, e talvez até preocupado, se soubesse que rumo estão tomando minhas reflexões teológicas; e é aqui que sinto mais falta de você, porque não conheço ninguém mais com quem poderia discutir essas coisas a fim de ter meu pensamento aclarado.
O que me tem incomodado incessantemente é a questão de o que de fato o cristianismo é, ou ainda quem de fato Cristo é, para nós hoje. Chegou ao fim o tempo em que se podia dizer tudo às pessoas por meio de palavras teológicas ou piedosas, e terminou também o tempo da introspecção e da consciência – e portanto o tempo da religião em geral. Estamos progredindo rumo a uma era completamente isenta de religião; da forma como são agora, as pessoas são simplesmente incapazes de serem religiosas. Mesmo os que se descrevem como religiosos não agem de forma alguma em conformidade com isso, e devem portanto estar se referindo a algo muito diferente com esse “religioso”.
Os mil e novecentos anos de pregação e teologia cristãs estão inteiramente embasados no conceito de uma religiosidade inerente à raça humana. O “cristianismo” foi sempre uma manifestação – talvez a verdadeira manifestação – de “religião”. Mas se um dia fica claro que esse “inerente” não existe de forma alguma, mas tratava-se de um forma transitória e historicamente condicionada de auto-expressão humana, e se o homem torna-se em consequência disso radicalmente irreligioso – e creio que seja mais ou menos esse o caso (do contrário como explicar, por exemplo, que esta guerra, em contraste com todas as anteriores, não está produzinho qualquer reação “religiosa”?) – o que isso quer dizer para o “cristianismo”?
Quer dizer que foi removida a fundação de tudo que havia sido até agora nosso “cristianismo”, e que restam uns poucos “últimos sobreviventes da era dos cavaleiros”, ou uns poucos sujeitos intelectualmente desonestos, dos quais podemos descender como “religiosos”. Serão esses os poucos escolhidos? Será contra esse dúbio grupo de pessoas que deveremos arremeter com zelo, ressentimento ou indignação, a fim de vendermos a eles os nossos bens? Devemos atacar um punhado de gente infeliz em sua hora de necessidade e exercitar sobre eles uma espécie de compulsão religiosa? Se não queremos fazer tudo isso, se nosso julgamento final deve ser que a forma ocidental do cristianismo foi, também ela, apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião, que tipo de situação emerge para nós, para a igreja? Existem cristãos sem religião? Se a religião é apenas uma vestimenta do cristianismo – e se mesmo essa vestimenta já teve diferentes aspectos em diferentes épocas – o que é então um cristianismo sem religião?
E se a forma ocidental do cristianismo foi apenas um estágio preliminar para a completa ausência de religião?
Barth, o único a começar a trilhar essa linha de raciocínio, não levou-a até o final, mas chegou ao positivismo da revelação, que em última análise é essencialmente uma restauração. Para o trabalhador comum sem religião (ou para qualquer outro homem) não há lucro algum aqui. As perguntas a serem respondidas devem ser certamente as seguintes: o que significam uma igreja, uma comunidade, um sermão, uma liturgia, uma vida cristã, num mundo sem religião? Como se fala de Deus sem religião – isto é, sem as pressuposições temporalmente condicionadas de metafísica, introspecção e assim por diante? Como se fala (ou talvez agora não possamos nem mesmo “falar” do modo como estávamos habituados a fazer) de um modo “secular” sobre “Deus”?
Em que sentido somos cristãos seculares e sem religião, em que sentido somos a “ek-klesia”, os que são convocados, sem olharmos para nós mesmos de um ponto de vista religioso como especialmente favorecidos, mas ao contrário pertencendo ao mundo de modo completo? Nesse caso Cristo não é mais um objeto de religião, mas algo inteiramente diferente: é realmente o Senhor do mundo. Mas o que isso quer dizer? Qual é o lugar de adoração e de oração numa conjuntura sem religião? Assumirá a disciplina secreta, ou alternativamente a diferença entre o último e o penúltimo, uma importância nova nesta situação?
Como se fala de um modo “secular” sobre “Deus”?
Preciso parar por hoje, para que a carta posso partir imediatamente. Devo escrever de novo dentro de dois dias. Espero que você entenda mais ou menos o que estou querendo dizer, e que não ache muito enfadonho. Adeus por enquanto. Não é sempre fácil escrever sem um eco, e você deve me perdoar se isso faz das minhas cartas algo como um monólogo.
Penso muito em você.
Seu Dietrich"
Dietrich Bonhoeffer a Eberhard Bethge,
do campo de concentração de Tegel
30 de abril de 1944
sexta-feira, 20 de maio de 2011
CEDO DEMAIS
Jacques Ellul em Anarquia e Cristianismo
Na história cheia de contrastes do cristianismo, o maior contraste talvez esteja no quão rapidamente os cristãos aprenderam a ignorar as terríveis exigências das palavras e do exemplo do homem que pretendiam seguir. Em que, de todos os heróis cristãos, ninguém tenha sido historicamente menos ouvido e menos levado em conta do que o próprio Jesus.
Mas se Jesus é como afirmava ser a ressurreição e a luz do mundo, a verdade, o caminho e a vida. Se, como ele dizia, não se pode esconder uma cidade edificada sobre o monte, de que forma os cristãos conseguiram manter-se por dois mil anos praticamente a salvo da sua mensagem?
Parte importante do problema pode ter sido, paradoxalmente, a extraordinária e crescente popularidade que o cristianismo foi alcançando ao longo dos seus primeiros três séculos de história. Mesmo antes que um ponto final houvesse sido colocado nos livros do Novo Testamento, a nova e revolucionária doutrina do Caminho se propagava à velocidade da língua por mercados, bazares, casas, sinagogas, teatros, tribunais, palácios e escolas de filosofia.
Constantino foi o primeiro imperador romano a professar e organizar o cristianismo como religião no Concílio de Nicéia em 325, e posteriormente, em 392, Teodósio I proclama o cristianismo religião oficial do Império Romano. Em pouco mais de trezentos anos um professor rebelde de um canto remoto do globo era consagrado como o Deus diante do qual se dobrava o imperador de toda a terra.
Nesse sucesso espetacular pode estar a semente do fracasso histórico do cristianismo em representar adequadamente o seu Rei e as idéias que ele defende.
O apóstolo Paulo havia instado Timóteo que transmitisse diligentemente, e através do seu próprio exemplo, o conteúdo da mensagem a discípulos idôneos, capazes de passá-lo adiante sem qualquer deturpação. Porém o discipulado nos moldes estabelecidos por Jesus e pelos apóstolos era um processo lento e exigente, uma exigência que o sucesso formidável do cristianismo primitivo não se podia dar ao luxo de manter. Jesus e sua religião tornaram-se tão populares que as pessoas queriam abraçá-los mesmo antes de saber do que se tratavam e a que vinham.
Naquele tempo, como ainda hoje e pelos mesmos motivos, as pessoas eram convidadas a adotar e defender o cristianismo muito antes de serem ensinadas a discernir por si mesmas as idéias e valores que o Cristo havia adotado e defendido. O cristianismo foi desde cedo produto mais popular do que Jesus. A etiqueta tornou-se instantaneamente mais famosa e mais desejável do que o modelo.
As pessoas se convertiam como moscas, abandonando em massa suas religiões ancestrais em favor da nova e irresistível onda, que combinava os ideais elevados do estoicismo com o misticismo de Platão. De uma hora para outra o empoeirado Filho do Homem tornou-se o herói unânime de todo o mundo conhecido.
Jesus saiu, naturalmente, prejudicado com essa inusitada glória. Como diz Jorge Luis Borges, "a fama é uma espécie de incompreensão: talvez a pior".
Em comum com os romanos e bárbaros, posso ter também adotado o cristianismo cedo demais. Versões disneyficadas da vida de Jesus foram impressas em mim muito antes que eu pudesse conceber Jesus como o homem completo e complexo que aparece nas páginas do Novo Testamento.
Olhando para trás, eu vejo que eu estava pronto para admitir Jesus como Deus muito antes de ser capaz de reconhecê-lo como pessoa notável, divulgador de idéias incomuns, proponente de improvável estilo de vida. Pensar em Jesus como Deus logo cedo foi, para mim, parte fundamental da estratégia de anular qualquer coisa que ele tivesse dito, feito e exigido.
Afinal de contas o sujeito era Deus, maior contraste entre ele e os homens não poderia haver. Nada que dizia respeito a ele poderia vir jamais a dizer respeito a mim. Aceitando Jesus como Deus eu havia, paradoxalmente, sido imunizado contra suas palavras e suas idéias e sua vida e seu exemplo, contra a sua pessoa.
A divindade de Jesus permanecia, no entanto, coisa ligada à religião que eu professava, e não a qualquer convicção pessoal. Era a "crença correta", requisito para que eu me mantivesse sensatamente ligado à religião dos meus pais sem causar maiores problemas a eles e a mim.
Quando encontrei-me finalmente, depois de evitá-lo por muitos tempo e de todas as formas, aos pés do Jesus homem, quando senti-me definitivamente esmagado pela singularidade do seu pensamento, de suas demandas e sua conduta, quando me achei diante do personagem complexo e inclassificável, do caráter puro, espertíssimo e inconformado, do homem inteiramente terno, intransigente, flexível e irrefreável, somente então a possibilidade daquele sujeito ser realmente Deus cruzou minha mente e meu coração.
Descobri que não havia ninguém que eu admirasse mais do que aquele louco crucificado, e pela primeira vez sua vida pesava para mim tanto quanto sua morte.
Cheguei à conclusão de que somente alguém que ousou ser e provar-se tão extraordinariamente homem tinha cacife para afirmar-se Deus.
Mas se Jesus é como afirmava ser a ressurreição e a luz do mundo, a verdade, o caminho e a vida. Se, como ele dizia, não se pode esconder uma cidade edificada sobre o monte, de que forma os cristãos conseguiram manter-se por dois mil anos praticamente a salvo da sua mensagem?
Parte importante do problema pode ter sido, paradoxalmente, a extraordinária e crescente popularidade que o cristianismo foi alcançando ao longo dos seus primeiros três séculos de história. Mesmo antes que um ponto final houvesse sido colocado nos livros do Novo Testamento, a nova e revolucionária doutrina do Caminho se propagava à velocidade da língua por mercados, bazares, casas, sinagogas, teatros, tribunais, palácios e escolas de filosofia.
Constantino foi o primeiro imperador romano a professar e organizar o cristianismo como religião no Concílio de Nicéia em 325, e posteriormente, em 392, Teodósio I proclama o cristianismo religião oficial do Império Romano. Em pouco mais de trezentos anos um professor rebelde de um canto remoto do globo era consagrado como o Deus diante do qual se dobrava o imperador de toda a terra.
Nesse sucesso espetacular pode estar a semente do fracasso histórico do cristianismo em representar adequadamente o seu Rei e as idéias que ele defende.
O apóstolo Paulo havia instado Timóteo que transmitisse diligentemente, e através do seu próprio exemplo, o conteúdo da mensagem a discípulos idôneos, capazes de passá-lo adiante sem qualquer deturpação. Porém o discipulado nos moldes estabelecidos por Jesus e pelos apóstolos era um processo lento e exigente, uma exigência que o sucesso formidável do cristianismo primitivo não se podia dar ao luxo de manter. Jesus e sua religião tornaram-se tão populares que as pessoas queriam abraçá-los mesmo antes de saber do que se tratavam e a que vinham.
Naquele tempo, como ainda hoje e pelos mesmos motivos, as pessoas eram convidadas a adotar e defender o cristianismo muito antes de serem ensinadas a discernir por si mesmas as idéias e valores que o Cristo havia adotado e defendido. O cristianismo foi desde cedo produto mais popular do que Jesus. A etiqueta tornou-se instantaneamente mais famosa e mais desejável do que o modelo.
As pessoas se convertiam como moscas, abandonando em massa suas religiões ancestrais em favor da nova e irresistível onda, que combinava os ideais elevados do estoicismo com o misticismo de Platão. De uma hora para outra o empoeirado Filho do Homem tornou-se o herói unânime de todo o mundo conhecido.
Jesus saiu, naturalmente, prejudicado com essa inusitada glória. Como diz Jorge Luis Borges, "a fama é uma espécie de incompreensão: talvez a pior".
Em comum com os romanos e bárbaros, posso ter também adotado o cristianismo cedo demais. Versões disneyficadas da vida de Jesus foram impressas em mim muito antes que eu pudesse conceber Jesus como o homem completo e complexo que aparece nas páginas do Novo Testamento.
Olhando para trás, eu vejo que eu estava pronto para admitir Jesus como Deus muito antes de ser capaz de reconhecê-lo como pessoa notável, divulgador de idéias incomuns, proponente de improvável estilo de vida. Pensar em Jesus como Deus logo cedo foi, para mim, parte fundamental da estratégia de anular qualquer coisa que ele tivesse dito, feito e exigido.
Afinal de contas o sujeito era Deus, maior contraste entre ele e os homens não poderia haver. Nada que dizia respeito a ele poderia vir jamais a dizer respeito a mim. Aceitando Jesus como Deus eu havia, paradoxalmente, sido imunizado contra suas palavras e suas idéias e sua vida e seu exemplo, contra a sua pessoa.
A divindade de Jesus permanecia, no entanto, coisa ligada à religião que eu professava, e não a qualquer convicção pessoal. Era a "crença correta", requisito para que eu me mantivesse sensatamente ligado à religião dos meus pais sem causar maiores problemas a eles e a mim.
Quando encontrei-me finalmente, depois de evitá-lo por muitos tempo e de todas as formas, aos pés do Jesus homem, quando senti-me definitivamente esmagado pela singularidade do seu pensamento, de suas demandas e sua conduta, quando me achei diante do personagem complexo e inclassificável, do caráter puro, espertíssimo e inconformado, do homem inteiramente terno, intransigente, flexível e irrefreável, somente então a possibilidade daquele sujeito ser realmente Deus cruzou minha mente e meu coração.
Descobri que não havia ninguém que eu admirasse mais do que aquele louco crucificado, e pela primeira vez sua vida pesava para mim tanto quanto sua morte.
Cheguei à conclusão de que somente alguém que ousou ser e provar-se tão extraordinariamente homem tinha cacife para afirmar-se Deus.
O ÚLTIMO CRISTÃO

"A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. 'Meu Deus', dirá você, 'se eu fizer isso minha vida estará arruinada. Como vou prgredir na vida?'.
Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento."
Sören Kierkegaard
A MINHA PORÇÃO É O SENHOR

Um estudo realizado por um professor da Universidade de Cornell e seu irmão, pastor presbiteriano mostrou que o tamanho das porções e dos pratos representados nos quadros da Última Ceia têm aumentado sensivelmente no decorrer do último milênio.
As descobertas sugerem que o fenômeno de servirem-se porções maiores em pratos maiores, que leva as pessoas a comerem mais do que deveriam, tem se acentuado gradualmente no mesmo período.
Os pesquisadores analisaram 52 pinturas da Última Ceia, e descobriram que nos últimos mil anos o tamanho do prato principal cresceu progressivamente 69 por cento, e o tamanho do pão cerca de 23 por cento.
Fonte: Reuters
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A CIDADE ESCONDIDA E O DEUS AUSENTE

Até aqui não havia conseguido ponderar sobre os acontecimentos da última quinta-feira (7/04/11). Não havia entusiasmo para arguir ou tecer uma análise. Ainda pasmo e paraliso de terror cada vez que refaço em minha mente as cenas que a mídia não se cansa de narrar. Freud dizia que estamos perpetuamente conspirando em segredo contra nós mesmos. A morte estúpida de crianças em uma escola me faz desconfiar que tal conspiração está cada vez mais explícita.
Em um de seus comentários arbitrários, [Arnaldo Jabor ] citava a carta do assassino enfatizando as partes onde ele falava de “puros e impuros”, “Deus”, “Jesus” e dava recomendações a respeito de seu próprio funeral. Jabor aproveita aquela carta para traçar um histórico da religiosidade humana e suas nefastas conseqüências, agregando, como de praxe, religiosidade e Deus a um único pacote. Por fim arrematava seu comentário com a asseveração de que, apesar de toda a religiosidade, Deus está cada vez mais ausente.
Ora, sejamos mais práticos. Era, na verdade, um sujeito esquizofrênico, solitário, abandonado de todos os lados, perseguido cruelmente na escola por ser “estranho”. Sua carta era uma sucessão de delírios. Ele não professava nela nenhuma religião específica, apenas religiosidade. Neste episódio macabro, aquele sujeito psicótico e atormentado foi apenas o executor. O autor, na verdade, não tem cara. Está presente em instituições como escolas, empresas, ambientes religiosos e na mídia.
O que acontece, de fato, é que este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são nossos favoritos? Os notáveis, os talentosos, os destacados, os fluentes, os afluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os afinados, os inteligentes, os espirituais. Quanto mais admiráveis nos parecem as qualidades de alguém, mais naturalmente, mais inevitavelmente essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.
Aqueles que não têm alguma competência para oferecer: os feios, os desajeitados, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar intuem por sua vez que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não têm competências em grau ou quantidade suficientes para merecer nosso amor, e sabem disso.
Nossa tendência mais natural é amar as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja essa capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que também dou o nome de religiosidade: não amamos as pessoas, amamos suas competências. A religiosidade humana não se resume apenas àquela religiosidade talhada a mão, professada em ambientes ditos sagrados, onde se aglomeram devotos. Trata-se de uma religiosidade mais tosca, não lapidada, esperando receber um formato. Mais ou menos como na carta do sujeito. Para ele as distinções se resumem a “puros e impuros”. Para nós, as distinções mais comuns se baseiam em bonitos e feios, inteligentes e tapados, normais e estranhos... a lista é inesgotável.
A religiosidade não é, portanto, um privilégio dos que se organizam sob um punhado de crenças. A religiosidade é intrínseca ao ser humano, seja ele místico ou agnóstico. É formato do mundo, com o qual não se pode conformar, porque é cármico, é recompensalista e cruel. E neste sistema Deus foi convidado a se retirar, de modo que, é lógico, está ausente. Pois nossa vida é, de cima a baixo, da infância à velhice, da manhã à noite, do trabalho ao lazer, mera resposta condicionada às exigências feitas sobre nós pelos outros e por um meio-ambiente criado pelo homem.
Mas acho que o mundo ainda pode ser salvo disso, e quero explicar como, mas preste atenção porque só vou dizer uma vez.
É necessário em primeiro lugar que se entenda que (e porque) a situação está cada vez mais desesperadora do que já esteve. O mundo está duas vezes mais difícil de salvar do que, digamos, no tempo de Jesus, e não é só porque há mais gente para ser salva. Tanto a salvação do mundo quanto a específica dificuldade presente estão ligadas à qualidade das relações entre as pessoas.
Há dois mil anos, para salvar o mundo, bastava convidar as pessoas a abraçarem uma forma radical e revolucionária de convivência. Hoje em dia é preciso lembrá-las, em primeiro lugar, do que é convivência, que há um mundo possível determinado pelas relações autônomas e criativas entre as pessoas, um mundo louquíssimo impulsionado pela graça fragilíssima da camaradagem e não pela sociedade de consumo, pela internet, pelos reality shows, pelos times de futebol, pela marca da roupa, pelo modelo do carro, pelo peso onipresente das pressões familiares, religiosas, sexuais, econômicas, raciais e políticas.
Jesus viveu naturalmente para denunciar a religiosidade humana. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é incrivelmente, a ausência de qualquer critério. O Filho do Homem desafia-nos a ser nisso singulares (leia-se santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente como metralhadoras, abandonando definitivamente os critérios usuais de competência. Essa regra divina pode ser expressa da seguinte forma: Ninguém merece, por isso todos podem ter.
Portanto, desiluda-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem-intencionadas que sejam, e raramente são. A salvação não virá de ONGs ou OGs, Gogues ou Magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias legislativas, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência humanitária. Se eu e você não fizermos, ninguém vai fazer. Absolutamente ninguém vai fazer.
“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre o monte.”
Mateus 5:14
Não se iluda, isso não é função de nenhum grupo específico. Qualquer um pode trazer luz ao mundo, qualquer um. Mas na maior parte do tempo Deus não existe, quando a situação aperta ele passa a estar ausente e o evangelho é uma farsa. Não se pode esconder uma boa-nova que se aplica a qualquer um, por isso, quando não atinge indiscriminadamente a todos, a cidade não está sobre o monte, e pode ser facilmente escondida.
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