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"O que me faz viver é tão intenso que até me perco se explicar. O que me faz viver é tão profundo, mas me vê no mundo, no singular. O que me faz viver vai além da lógica. É maior do que a amplitude cósmica, que o meu pensar. O que me faz viver, eu sei, é isto: de Jesus, o Cristo, o amar." [Sérgio Pimenta]

sábado, 4 de junho de 2011

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

Semana passada, no meu ônibus de todas as manhãs, pude presenciar uma conversa incomum. Incomum porque na "civilizada" cidade em que eu moro, três estranhos normalmente não conversam em voz alta dentro de um coletivo sobre seja o que for, e estava claro que os três protagonistas eram isso mesmo, desconhecidos entre si, trocando opiniões com a desajeitada retórica de quem percebe ter uma audiência cativa.

"No meu tempo", dizia o veterano do trio, um baixinho grisalho que aparentava ser mais velho do que os sessenta e poucos anos que em determinado momento afirmou ter, "quando eu cheguei em 76 no Rio, a coisa não era assim. Tinha emprego pra todo mundo. Eu ganhava por semana, chegava o final de semana e eu recebia 600, 700 reais, réis na época, que a gente gastava e ainda sobrava pra semana seguinte. O sujeito saía de um emprego e já tinha outro esperando ali na esquina. A coisa era diferente, eu pude até construir alguma coisa. Mas agora, do jeito que vão as coisas, nesses últimos vinte anos não deu pra fazer nada".

Olhei de relance para o velho, que numa rápida avaliação não me pareceu o tipo que tivesse construído alguma coisa, mesmo vinte anos atrás.

"Pois já diz o meu avô, ele lutou na Segunda Guerra", retomou depressa o segundo interlocutor, trinta e tantos anos de idade, cabelos pretos engomados, o que falava mais e mais alto dos três, "que pra consertar mesmo esse país era só mesmo colocando os militares na rua. Tirar tudo que é deputado e vereador e deixar só os militares e o presidente no governo. Fechar o Palácio, deixar um vereador ou outro e fazer essa gente trabalhar o dia inteiro. Tem vereador aí ganhando quinze mil reais pra não fazer nada. Acabar com essa roubalheira, e vê se o país não vai pra frente".

O velhinho concordou de imediato, e o terceiro participante, um jovem prematuramente barrigudo que usava óculos e barba por fazer, evidentemente mais politizado e convicto de não nutrir opiniões tão simplistas, calou e deu um meio sorriso.

"Pois com os bilhões que gastam esses deputados", concluiu o velho, empolgado pela sensatez da sua argumentação, "imagine o que não dava pra fazer".

Enquanto eu tentava assuntar o mais desapaixonadamente que podia as eventuais vantagens e riscos de uma rigorosa intervenção militar, o segundo interlocutor, o falador, voltou a falar.

"Tem um cara que trabalha comigo que veio da China. Ele disse que na China, se alguém rouba, o sujeito é algemado em praça pública e leva um tiro na cabeça, e ainda vão cobrar a bala da família".

"Pois aqui deveria ser assim", concordou na mesma hora o velhinho, empolgadamente.

O terceiro, o jovem, claramente incomodado pelo rumo reacionário que a conversa estava tomando, não conseguiu mais ficar quieto.

"É, mas se fosse tão bom lá ele não teria vindo pra cá".

O segundo entendeu e não ousou responder, mas o velhinho tentou impor a sua própria lógica.

"É" disse ele. "Essa gente ouve que aqui é bom, que aqui é primeiro mundo, e vem pra ver como é. Depois vem a decepção".

"Só sei que o Brasil é muito complicado", voltou o segundo. Sem interrupção, para preencher o vácuo, ele lançou essa: "A culpa toda é mesmo dos estrangeiros que vieram aqui colonizar. Vieram, como diz o outro, roubar as nossas terras".

"Pera lá", retrucou o jovem, que a essa altura não estava disposto a deixar passar mais nada. "Você é descendente de europeus. Você não tem como dizer que eles vieram roubar 'as nossas terras'. Você não é descendente dos índios".

"Sou descendente de espanhóis", reconheceu o outro. E arrematou, como se explicasse alguma coisa: "Mas se pelo menos tivesse sido um povo só".

A platéia ao redor guardava desinteressado silêncio, entre um solavanco e outro, e quem deu a última palavra foi ele mesmo, o falador.

"Só sei que esse país não tem mais jeito", disse ele. "A gente vai morrer e daqui a cinquenta anos isso aqui vai estar a mesma coisa".

O jovem e o velho, sem acrescentarem nada à discussão e sem se despedirem, desceram no ponto seguinte. Ficamos só eu, que não havia dito nada, e o falador, que agora desviava os olhos de todos porque não tinha com quem conversar.

Sem deixar de observar impassivelmente a paisagem urbana que passava janela afora (eu, como todos os outros, não havia dado indicação alguma de que tinha estado prestando atenção. Estávamos aparentemente acima daquele tipo de coisa), fiquei tentando diagnosticar o que naquele trecho roubado de conversa havia me perturbado ao ponto de não conseguir tirá-lo da cabeça.

Tive de concluir que, extraídos os lugares-comuns, três questões levantadas naquela conferência coletiva haviam colocado minha cabeça para funcionar: a menção de passagem à Segunda Guerra, uma das minhas obsessões mais caras, a questão da diversidade dos povos na formação do país, e as implicações da expressão "como diz o outro".

Aproveito esse pretexto, então, para expor certas impressões pessoais que me são muito caras e talvez não tenha oportunidade de deixar registradas em outro lugar. Só algumas dizem respeito ao Brasil. Mesmo que eu e você não estejamos no mesmo ônibus, essas impressões talvez sejam de interesse coletivo. Mesmo se fazendo de desentendido, você pode querer saber.


Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo "jeitão" no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como "povo brasileiro"). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.

Devo admitir, por outro lado, que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza peculiar, para dizer pouco do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano, mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.

No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é talvez o resultado mais prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais redundante e subutilizado, ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.

O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo, porque, por definição, nada acontece no Brasil. Se acontece, foi fora daqui.

Somos uma nação de voyeurs, um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o Popular da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre "o outro" que opina, não a gente: como diz o outro. Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.

Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais, na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido. Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente hours-concours, fora da competição, mais de cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. Eternamente.

Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.


"Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tô só vendo, sabendo,
Sentindo, escutando e não posso falar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo as pernas de louça
Da moça que passa e não posso pegar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me ofende, humilhando, pisando,
Pensando que eu vou aturar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo,
Pedindo pra gente cantar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar...
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar..."




quinta-feira, 2 de junho de 2011

O AMOR É UMA ORIENTAÇÃO


Todo discurso tem algum potencial para gerar a polarização, mas reservamos para alguns uma potência tanto particular quanto arbitrária. Assuntos que despertam opiniões ao mesmo tempo inflamadas e opostas são em geral os assuntos que convém evitar. Em nome da paz ou da covardia, é simplesmente mais fácil não falar sobre eles, sob o risco de acender a indignação de gente que habita com muita convicção cada um dos polos que se condenam.

Porém também é verdade que não elegemos os discursos polarizadores ao acaso. Os assuntos que elegemos como polêmicos revelam muito mais sobre nós do que gostaríamos. Se você acha de fato importante saber e discutir em que ponto de um ser humano adulto outro ser humano adulto escolhe colocar o seu órgão sexual, na intimidade de seu quarto e em seu tempo livre, se é a esse tipo de investigação criativa que você está ponderando dedicar uma parte substancial do seu tempo, esse é problema sexual seu. Como uma vez aprenderam homens respeitáveis ao redor de uma mulher adúltera, o comportamento verdadeiramente inquietante é o que faz da sexualidade do outro uma bandeira e um problema para si mesmo. É aqui que jaz a verdadeira perversão.

Porém o problema com os discursos polarizadores é que aparentemente não há como apaziguar a tensão que produzem. Se você deixa de se pronunciar a respeito, nada de fato muda e a tensão permanece. Se você escolhe se pronunciar, tudo que consegue fazer é atiçar a fogueira, demarcando e acentuando a distância entre os grupos antagonistas.

Eu mesmo tenho opiniões muito severas a respeito desse e de outros assuntos, e já achei que a mera exposição de minha iluminada opinião poderia contribuir para mais do que meramente acentuar o problema. Outros já pensaram como eu. Porém, como descobriu Pedro diante de um auditório de incircuncisos, nossas convicções podem muito bem ser redimidas, isto é, revistas pelas nossas próprias histórias.

O propósito desta nota é contar o que sei a respeito de um homem chamado Andrew Marin, e que sei porque já o li contando essa história muitas vezes.

Andrew (americano, popular, desportista amador) foi até seus anos de ensino médio um cristão convicto e um homófobo militante, daqueles que se rebaixam sem hesitação à intimidação física e verbal. Não deve haver dúvida, do mesmo modo, de que Marin entendia essas duas vocações (seu cristianismo ardente e seu desprezo ativo pelos homossexuais) como manifestações de uma mesma paixão pela verdade.

Sua vida teria sido mais simples se na época de colégio seus três melhores amigos de infância (duas garotas e um rapaz) não tivessem confiado nele o bastante para fazerem, um a um e sem saberem um do outro, a mesma confissão: "Andrew, posso te contar uma coisa? Por favor, não conte pra ninguém, mas eu sou gay".

Foi assim que, num intervalo de três meses, Andrew Marin encontrou-se pela primeira vez com seus três únicos amigos e, como bom cristão, cortou todo laço com eles. Perdeu-os porque eram homossexuais.

Marin mergulhou num estado de profunda perplexidade (problema que acomete a muitos santos cristãos). Seu mundo havia sido miseravelmente subtraído debaixo de seus pés, e ele passou a requerer do seu Deus e da sua Bíblia uma explicação e uma solução. Ele queria de volta o mundo das suas seguranças anteriores, e exigia que Deus lhe revelasse uma razão, uma secreta justificativa para a tristeza que estava sentindo.

Deus não lhe deu uma resposta, mas o homem creu ouvir na escuridão:

– Andrew, o que você deve se perguntar é como devem ter se sentido os seus amigos, crescendo com você durante todos esses anos: os amigos que, sabendo que você se mostrava em tudo abertamente contrário ao que eles são e ao que representam, escolheram permanecer seus amigos.

Desta caverna emergiu um homem absolutamente notável. Marin decidiu que sua vida deveria servir de ponte entre dois discursos altamente incompatíveis, o dos conservadores evangélicos norte-americanos e o da exuberante comunidade homossexual de seu país. Ele refez o trajeto, pediu perdão a seus amigos e mudou-se para o bairro gay da sua cidade, Chicago, onde reside com a esposa há mais de dez anos. Ali Marin vive, permanece disponível e promove reuniões não-ortodoxas em lugares absolutamente não-ortodoxos, ao mesmo tempo em que organiza os movimentos de uma pequena mas ambiciosa fundação.

Tendo em vista a eterna discussão a respeito de até que ponto a orientação homossexual é uma escolha ou um destino, Marin achou melhor subverter os raciocínios subjacentes e adotou como lema a frase: "O amor é uma orientação", que é também o título de seu livro. Para Andrew Marin, iluminado pelo que vê no sol dos evangelhos, o amor é que é, sem espaço para discussão e em todos os sentidos, uma inescapável orientação. Neste clima e neste momento da história isso implica que os cristãos devem amar formidavelmente e exuberantemente os homossexuais.

Mas na boca de Marin isto não se limita ao batido discurso de odiar o pecado e amar o pecador. Para começar, quando perguntado, Marin recusa-se a dar respostas simplistas e polarizadoras para as perguntas mais quentes que cercam a questão. Ele explica que aprendeu com Jesus a não dar respostas simples para questões complexas, e essa sua postura (precisamente como no tempo de Jesus) desperta por vezes a indignação de gente dos dois lados do muro.

Para muitos conservadores evangélicos, Marin é uma abominação e seu ministério é uma farsa porque, apesar de se apresentar como conservador, ele se recusa a admitir com todas as letras e enfatizar o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual é incontornavelmente pecaminosa e que não há conjuntura em que ela possa ser considerada aceitável diante de Deus e dos homens. Semelhantemente, para muitos na comunidade homossexual Marin é uma falso amigo e um propagandista infiltrado, porque apesar desse papo de amor ele se recusa a admitir com todas as letras o que eles enxergam como essencial: que a conduta homossexual entre adultos é coisa legítima, íntegra e sã, que merece a celebração dos homens e as bençãos da igreja tanto quanto qualquer relação heterossexual.

Andrew Marin é esse homem que deixa-se queimar entre os extremos, lutando centímetro por centímetro para promover o diálogo sem contribuir para acentuar uma distância que como está já é paralisante. Marin tornou-se um gigante porque teve de fato um bom professor, e aprendeu com o Jesus dos evangelhos que um discurso polarizador não deve ser jamais alimentado. Todo discurso aplicado ao extremo (e os discursos tendem aos extremos) gera esterilidade, hostilidade e desumanização. A ferida dos ódios resultantes só pode ser estancada pelo remédio do amor, o amor que é uma orientação: ao mesmo tempo uma escolha e um destino.

E é de Marin a definição mais fulgurante de amor que jamais ouvi: "amor", explica ele, "é a expressão mensurável de comportamentos não-condicionados". Permita-me repetir: amar é prover expressões mensuráveis de comportamento não-condicionado. Proponho que façamos todos nós uma tatuagem muito visível e incômoda com essa frase! Só depois de recitá-la solenemente para nós mesmos ganharíamos o direito de atirar a primeira pedra.

De que forma Andrew Marin dá evidência desse amor não-condicionado? Ele vive há uma década entre gente que não compreende e não tem ferramentas para compreender. Ele os defende diante de gente que os considera indefensáveis, e recebe a condenação dos que está defendendo porque acham que ele não está indo longe o bastante. Cada um a seu modo, os dois lados acham insuficiente a proposta de amor de Marin. Mas o maluco, o insensato, continua amando.

Nos Estados Unidos, cristãos que frequentam as passeatas gay costumam fazê-lo para levar cartazes que dizem coisas edificantes do tipo "DEUS ODEIA BICHAS" ou "VÂO ARDER NO INFERNO" Andrew Marin e seus amigos vão a essas passeatas com cartazes que dizem apenas "I'M SORRY", e pedem a quem quiser ouvir desculpas por todo o ódio que já foi derramado sobre os homossexuais no nome Daquele que nada tem a ver com o ódio.

Por trás dessa sua singeleza, dessa impertinência de Marin em amar o inimigo tido como o mais desprezível, demonstra uma subversão ainda maior: a ousadia de sugerir que um cristão não deve ser capaz de extrair sua identidade de algo que não seja o amor. Para esse pequeno americano, não somos cristãos quando confessamos, quando escolhemos o mesmo adversário ou quando concordamos a respeito de alguma doutrina. Somos cristãos enquanto afirmamos teimosamente, sempre em atos mais do que palavras, a supremacia do amor.

É claro que ninguém dá ouvidos ao cara, porque seu ministério é pequeno e sua proposta insensata. Se amar for de fato prover expressões mensuráveis de comportamentos não-condicionados, quem se mostrará pronto a amar? Porque, se for assim, amar não seria você aprovar a conduta de dois caras sentados de mãos dadas no banco da sua igreja, mas seria você respirar fundo e não condená-los por eles estarem ali. Amar não seria você concordar com as posturas de pastores como o Ricardo Gondim a respeito de qualquer assunto, mas seria concluir que o seu compromisso mútuo com o amor basta para vocês continuarem juntos debaixo de um mesmo teto editorial (para entender, clique aqui). Essas seriam expressões genuínas de comportamento não-condicionado. Porque quando não estamos defendendo o amor estamos defendendo meramente a nossa convicção, ou pior, a nossa reputação, e até os pecadores fazem o mesmo.

Qualquer homossexual poderia nos ensinar a amar mais e melhor.


Muito mais sobre Andrew Marin, sua história, seu ministério e sua sacrossanta insensatez, aqui (em inglês): Love is an orientation - Leia, vale muito a pena!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

TODOS NUM MESMO BARCO


Há dois mil anos, debaixo deste mesmo sol, um sujeito desaforado sustentava a escandalosa noção de que Deus não aceita as pessoas com base em sua herança genética, desempenho moral, pureza sexual, popularidade, capacidade comprovada de empreendimento, consistência na observância religiosa, quociente de inteligência, saldo médio, nível de crédito ou qualquer outro mérito ou demérito curricular usual, mas com base em seu próprio cavalheirismo e graciosidade aquilo que a Bíblia chama de graça.

Uma característica fundamental do Deus que é Pai, propunha Jesus, é que ele não faz barganhas. Todas as tentativas pessoais e corporativas de ganhar o seu favor e a sua preferência não são apenas inúteis, mas contraproducentes, pois geram em nós uma falsa impressão de mérito pessoal (que só irá nos prejudicar) e não ajudam em nada a limpar a nossa barra.

O Deus da boa nova requer ao mesmo tempo muito mais e muito menos. Para agradá-lo é preciso abrir mão de qualquer tentativa de agradá-lo e começar a imitá-lo. Para imitá-lo é necessário abrir mão de nossa tendência a enxergar diferenças de mérito entre bons e maus, e passar a conceder a todos o mesmo improvável tratamento e as mesmas chances. É preciso aprender a dispensar nosso sol e nossa chuva sobre justos e injustos, sobre os que nos agradam e sobre os que nos odeiam, sendo nisso singulares como Deus é singular (santos como Deus é santo).

Para as pessoas que haviam feito de agradar a Deus sua vida, sua tese e sua profissão, a mensagem de Jesus era impensável escândalo. Os religiosos do tempo de Jesus acreditavam, como os de hoje, que o homem não deveria ser livre para não correr nenhum risco de desagradar a Deus. Os riscos de tal liberdade eram incomensuráveis. O único modo de manter o homem seguro no atalho da moral e da salvação, sabiam eles, era debaixo das rédeas seguras da religião.

Jesus por outro lado, não tinha uma palavra de condenação para oferecer aos corruptos, aos promíscuos, aos terroristas, aos militares da ocupação romana, às prostitutas, aos samaritanos, aos vendidos colaboracionistas, aos criminosos de colarinho branco, aos injustos, aos imorais, aos glutões, aos bêbados, aos mendigos, aos preguiçosos, aos violentos, aos pegajosos, aos irritantes e aos irritados e a todos os seus asseclas de todas as estirpes. Jesus não os condenava, não porque simpatizasse particularmente com a sua conduta, mas porque se condenasse a um teria de condenar a todos. Se todos recebessem o que mereciam, ninguém escaparia ao açoite. Não há um justo sequer, não há ninguém com uma ficha limpa. Nem mesmo um.

Como não há ninguém que possa levantar a mão dizendo que fez corretamente a lição, todos carecem e recebem o mesmo tratamento paciente do mesmo paciente Pai. E não adianta chamar de lado oferecendo maçãs, propinas, untuosos elogios ou longas orações. Estar na condição humana é estar embarcado num mesmo orgulhoso e precário Titanic, e para encontrar a paz é preciso primeiro reconhecer isso. É requisito encarar a dura e libertadora realidade de que você não é melhor do que ninguém e que carece da mesma misericórdia que todos os outros.

Para os pecadores sem máscaras é, curiosamente, mais fácil.

Significativamente, as palavras de condenação de Jesus estavam reservadas para os que apregoavam que as boas intenções da religião institucional eram a solução para o problema de garantir-se um lugar no bote salva-vidas do Titanic da condição humana e tentavam impor austeramente essa solução sobre os outros.

Nenhuma noção parecia a Jesus mais odiável do que essa. Para Jesus, acreditar e agir como se a barganha da religiosidade pudesse de alguma forma garantir alguma cumplicidade com Deus não era apenas a maior impenitência de todas. Era a única.

["Aprendam o que quer dizer: 'Misericórdia quero, e não sacrifício'"], bradava ele...

E falava sério.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

CRISTÃO OU LEVITICENSE?

De vez em quando as pessoas me perguntam o quê, exatamente, tenho contra o cristianismo, já que pareço criticá-lo com certa frequência. Eu não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse. Outro dia vi um adesivo de pára-choque que dizia o seguinte: "os cristãos não são perfeitos, só são perdoados", mas eu às vezes fico pensando com que frequência eles verificam com Cristo o acerto da segunda parte. Fico olhando para protestos e discursos longos protestando contra o casamento de homossexuais, levantando bandeiras, organizando marchas, passeatas com a desculpa hipócrita de que estão defendendo a família, e tento encontrar algo dos ensinos de Cristo naquilo. Como você pode imaginar, encontro muito pouco.

Me pergunto porque tantos fundamentalistas gastam tanto tempo no livro de Levítico e tão pouco tempo no Novo Testamento, e creio que essa é uma pergunta especialmente pertinente. Na verdade, é tão pertinente que eu gostaria de sugerir que existe uma classe inteira de gente que se auto-identifica como "cristãos", mas que não são cristãos de forma alguma, no sentido de que não seguem de fato os ensinos de Cristo de qualquer forma significativa. O que essas pessoas fazem é acenar na direção de Cristo de modo superficial enquanto concentram o seu tempo nos livros do Antigo Testamento. usando o texto seletivamente para apoiar seus próprios ódios e preconceitos, utilizando a Bíblia como cacetete ao invés de porta. Sendo esse o caso, sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.

Proponho que os chamemos de "leviticenses", nome inspirado por Levítico, o terceiro livro do Antigo Testamento, famoso por suas regras e fonte das passagens mais frequentemente citadas pelos "leviticenses" para justificar sua intolerância (inclusive, recentemente, contra gays e lésbicas, com base em Levítico 18:22: "Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação").

Sugerir que um cristão é na verdade um leviticense não é dizer que sua fé é falsa, ao contrário, é sugerir que sua fé encontra-se em outro lugar da Bíblia, nas partes que são fáceis de entender: as regras e regulamentos, todas as noções explícitas sobre o que você pode e não pode fazer para estar bem diante de Deus. Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se até mesmo por aqueles a que você se opõe e que se opõem e odeiam você. Qualquer idiota pode seguir regras, de fato, há bons indícios de que idiotas só conseguem seguir regras. Eis porque os leviticenses amam Levítico (e outros livros do Pentateuco e do Antigo Testamento): ele é repleto de regras. E em regras você pode confiar. É o motivo de serem regras.

Sejamos claros: nem todo cristão é um leviticense, não quero sugerir isso de jeito nenhum. Nem todo fundamentalista cristão é leviticense. E nem toda pessoa que crê que é moralmente errado permitir o casamento de homossexuais é tampouco leviticense. (Também para ficar claro: embora o Levítico seja parte da Torá, não vejo muitos leviticenses entre os judeus, que pela minha experiência vêem a Torá como um trampolim para abraçar o mundo ao invés de como uma defesa contra ele). Gente de bem pode discordar, e veementemente, sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é moral e o que é imoral, e sobre o que deveria ser feito a respeito. O que faz um leviticense, na minha opinião pelo menos, é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância, a fim de privar outros de direitos de que deveriam desfrutar. Os leviticenses sempre estiveram entre nós. Eles citavam a Bíblia para justificar a escravidão. Eles citavam a Bíblia para tentar manter as mulheres em casa. Eles citavam a Bíblia para manter as raças puras. Eles citam a Bíblia para impedir que gays e lésbicas beneficiem-se do casamento. E, cada uma das vezes, depois de citarem a Bíblia à saciedade, eles saem e usam essa desculpa para o seu ódio a fim de fazerem coisas terríveis.

Na minha opinião a melhor coisa que os cristãos podem fazer é reconhecer esse grupo no seu meio: gente que lê o mesmo livro, alega seguir os mesmos ensinos e afirma adorar o mesmo Cristo, mas que através de seus atos demonstra ser, vez após outra, algo que não um cristão. Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: "Quem são vocês? Vocês seguem o exemplo amoroso de Cristo ou seguem as regras de Levítico? Vocês usam a Bíblia para iluminar o seu amor ou para justificar o seu ódio? Quando Cristo voltar, de que modo você irá mostrar que trilhou o seu caminho? Pelo número de pessoas que amou, ou pelo número de pessoas a quem 'justificadamente' se opôs? Você ama a Cristo ou ama regras? Você é cristão ou leviticense?"

Quanto ao restante de nós, proponho que nos esforcemos para separar os cristãos dos leviticenses em nossas mentes. Não vejo motivo para culpar aqueles que genuinamente seguem a Cristo pelas ações dos que meramente usam Cristo como escudo para seus próprios ódios e temores. E, quando um leviticense atravessar o seu caminho, educadamente aponte para ele o que ele realmente é: não um cristão, mas mero leviticense.

Com toda a probabilidade, o leviticense irá odiá-lo por isso. Mas isso apenas comprova a coisa toda.

terça-feira, 24 de maio de 2011

SÓ DE SACANAGEM



De Elisa Lucinda


Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar?

Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam
entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, que reservo
duramente para educar os meninos mais pobres que eu,
para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus
pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e
eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança
vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança
vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o
aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus
brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao
conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e
dos justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva
o lápis do coleguinha",
" Esse apontador não é seu, meu filhinho".

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido
que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca
tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica
ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao
culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do
meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear:
mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem!

Dirão: "Deixa de ser bobo, desde Cabral que aqui todo
o mundo rouba" e eu vou dizer: Não importa, será esse
o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu
irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a
quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o
escambau.

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde
o primeiro homem que veio de Portugal".

Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.

Eu repito, ouviram? IMORTAL!

Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente
quiser, vai dá para mudar o final